Pare de roer a tensão


Tire essa mão da boca, menino! Que coisa feia ficar roendo unha! Com certeza essas frases fazem parte do repertório de muita gente. Quem não foi alvo desses "recados", pelo menos já ouviu algo parecido em casa, na escola, num jantar em família ou até mesmo no meio da rua.

Recriminado pela sociedade, o hábito de roer as unhas é uma mania como outra qualquer, mas que ocorre de forma compulsiva, ou seja, o indivíduo não consegue controlar suas ações e, muitas vezes, nem percebe o que está fazendo, conforme explica a psicóloga clínica Solange Nogueira, de São Paulo. “É o mesmo mecanismo de chupar o dedo ou de fumar, no qual se usa o condicionamento para aliviar a tensão”, esclarece ela.

Por trás desse costume, portanto, está um forte estado de tensão que pode ser gerado por incontáveis fatores, dos mais simples aos mais complexos. Mas, em geral, Solange entende que se trata de uma mania que começa sem motivo. “A criança fica assustada com alguma coisa, come a unha meio sem querer e sente que o recurso é bom para atenuar o susto”, exemplifica a psicóloga. A partir de então, passa a recorrer a ele sempre que se sente ameaçada.

À medida que amadurece, naturalmente toda pessoa vai aprendendo a lidar com as tensões do dia-a-dia. A mania de roer unhas, porém, bate de frente com essa tendência. “O hábito denota insegurança, ansiedade e falta de controle sobre as atitudes”, alerta Solange.

Os dentes sofrem

Para além da questão psicológica, quem rói unha também costuma causar prejuízos a seu corpo. A começar dos dentes. “Do ponto de vista odontológico, o fato de usar a mastigação para outra coisa que não a alimentação já é considerado um mau hábito, assim como morder lápis ou os lábios”, sustenta a dentista Márcia Fernandes Sgrinhelli, de São Paulo, especialista em odontologia psicossomática trilógica.

A verdade é que há conseqüências em colocar os dentes para exercer uma função para a qual não foram preparados. Os músculos da mastigação sofrem uma tensão adicional capaz de ocasionar problemas de articulação e a maloclusão, isto é, quando os dentes de cima não se encontram perfeitamente com os de baixo.

Como, em geral, os indivíduos usam os incisivos para roer suas unhas, esses dentes vão se desgastando e se tornam retos na ponta. “Normalmente, eles apresentam uma serrinha meio arredondada”, esclarece Márcia. Além disso, podem ainda se movimentar para trás, evidentemente depois de muitos anos de unhas devoradas.

A dentista explica que quem possui esse hábito também tem propensão ao chamado bruxismo, que consiste em ranger e apertar os dentes incondicionalmente e, algumas vezes, até ao dormir, o que, segundo ela, igualmente sinaliza uma grande tensão.

De qualquer forma, Márcia garante que os dentistas não consideram o hábito de roer unhas uma das piores coisas para a saúde dos dentes. “Mas entendemos que essa mania esconde uma questão psicológica que precisa ser tratada o mais cedo possível”, acredita a dentista. Na sua opinião, o problema emocional pode até ser pior do que o físico.

De micoses a verminoses

Se ficasse só nos dentes, estaria bom. No entanto, a mania gera transtornos para outras partes do corpo. De tanto comer suas garras, a pessoa literalmente gasta as pontas dos dedos e as próprias unhas, gerando uma deformidade local. “Há também um desgaste da lâmina ungueal, que faz com que as unhas fiquem mais moles”, explica a dermatologista da Universidade Federal de São Paulo, Márcia Fernandes Sgrinhelli.

É comum o indivíduo não se contentar com a unha propriamente dita e avançar para as pregas periungueais, ao redor das unhas, nas quais se inclui a cutícula. Ao devorar essa parte, a pessoa abre uma porta de entrada para infecções locais.

“Primeiro, a região fica vermelha e, depois, passa a coletar pus, que pode se depositar sob a unha”, enumera a dermatologista. É o conhecido unheiro, que, por vezes, chega a aumentar os gânglios linfáticos existentes debaixo dos braços, gerando a íngua, aquela dorzinha pontiaguda nas axilas.

Uma infecção desse nível, se não tratada, pode evoluir até para moléstias mais graves, como a erisipela. “Quando rói as unhas, o indivíduo rompe a barreira de proteção da pele e facilita a penetração dos germes”, justifica a médica, que, pela sua experiência, entende que essas conseqüências acometem muito mais o roedor ocasional do que o freqüente. “O crônico sabe até onde pode ir”, diz ela.

Outro problema são as micoses, causadas por fungos. Como esses microrganismos proliferam em regiões úmidas, o fato de ficar toda hora com a mão na boca cria o ambiente ideal para o seu desenvolvimento. Por fim, a dra. Sílvia lembra que está cientificamente comprovado que embaixo da unha há uma série de bactérias, ovinhos de germes e parasitas de todo tipo. A chance de o roedor pegar verminoses por meio de seu mau hábito é, portanto, muito grande. Mais um argumento duro de roer...

Boas dicas para evitar um mau hábito

Há quem diga que parar de fumar é mais fácil do que parar de roer unhas. Como a lâmina ungueal fica gasta de tanto ser devorada, a unha enfraquece e, um pouquinho que cresce, já quebra. Aí, o roedor fica maluco de vontade de terminar o serviço com os dentes...

Mas jeito tem. E não é pimenta, nem esparadrapo nos dedos, nem aqueles produtos que — surpresa!— provocam um gosto amargo nas unhas e, teoricamente, fazem com que o indivíduo pense duas vezes antes de colocar a mão na boca.

“Depois da terceira ou quarta tentativa, a pessoa se acostuma com o sabor desagradável”, garante a dermatologista de São Paulo, Sílvia Marcondes. Como, então, resolver a equação? Os especialistas asseguram que a solução sempre começa com um bom papo, dentro de casa, e pode acabar no divã. Algumas dicas:

* Se for um baixinho, não o reprima. “Essa atitude reforça o hábito, uma vez que deixa a criança tensa”, aconselha a psicóloga clínica Solange Nogueira.

“Não adianta brigar: os pais têm que ser parceiros de seus filhos nessa empreitada”, faz coro a dra. Sílvia. Afinal, as pessoas roem as unhas para aliviar a tensão. O ideal é suprimir a atenção a esse comportamento. Ou, então, estimular outra atitude. “Na hora em que a criança puser a mão na boca, peça a ela para fazer algo para você”, sugere Solange.

* Para os mais crescidos, Solange acredita que um bom contrato funciona. A velha fórmula do "se você não roer unha hoje, eu o levo ao cinema" continua atual e eficaz. Experimente. Já para adolescentes e adultos, o melhor é conscientizá-los do mau hábito, sem, contudo, resvalar para a crítica.

Levá-los a perceber que roem suas unhas com uma determinada intensidade é um ótimo primeiro passo, já que, por se tratar de uma mania compulsiva, eles podem não estar percebendo o que fazem. “Costumo dizer para meus pacientes tirarem uma foto. Assim, terão uma idéia de como suas unhas ficam feias”, conta a dermatologista Sílvia.

* Da mesma forma, vale a pena falar dos malefícios causados pelo hábito de roer unhas. Dos problemas dentários às micoses, passando pelas verminoses, tudo pode servir como um bom motivo para perder a mania. Para crianças mais crescidinhas, dá para viajar na criatividade e contar, por exemplo, que os bichinhos existentes sob a unha podem ser levados para dentro do corpo e provocar aquele estrago...

* Uma vez que tome consciência de que precisa parar de roer as unhas, o indivíduo certamente sofrerá mais nas primeiras semanas, tanto por conta da dificuldade em não recorrer ao hábito quanto pela ausência de estímulos físicos.

“Nesse período a unha fica horrorosa”, atesta a dra. Sílvia. Passado esse prazo, porém, as possibilidades de sucesso na empreitada serão mais concretas. Principalmente para as mulheres que, depois de tanto sacrifício para deixar as unhas crescerem, empunharão a bandeira estética a cada iminência de recaída.

* Falando em estética, a dra. Sílvia acredita que o esmalte é, sim, um aliado de quem deseja, digamos, uma mudança de hábito. “Eu recomendo, ainda que a pessoa tenha que pintar as unhas três a quatro vezes por dia”, exagera. Afinal, antes de levar a mão à boca, ela precisará ter o trabalho de tirar o esmalte. Um empecilho a mais...

* Nos casos em que o indivíduo não consegue parar e acaba adquirindo problemas físicos em função da mania, como uma infecção, Solange recomenda a terapia. Assim, ele poderá buscar seu equilíbrio e aprender a não viver de forma tão tensa. “Sempre será um trabalho com a finalidade de possibilitar que a pessoa tome contato consigo mesma”, sintetiza a psicóloga.


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