Um futuro livre da cárie


Todo mundo teve, tem ou terá uma cárie um dia, certo? Errado. De acordo com o que há de mais moderno em odontologia, o que as pessoas podem ter nos dentes são lesões ou cavidades cariosas, provocadas por uma doença infecciosa e transmissível chamada cárie.

Não se trata de uma simples troca de nomenclaturas. Por trás desses novos conceitos está uma revolucionária proposta de mudança no que se conhece hoje como tratamento dentário. O que se deseja agora não é mais restaurar dentes e sim promover a saúde.

Os esforços dessa nova odontologia caminham para o combate às bactérias que favorecem as lesões cariosas. Elas agem mais freqüentemente do que se pensa e a contaminação acontece de uma forma que pouca gente imagina.

A saliva é o grande meio de contaminação da cárie, que é sempre transmitida pela mãe, ainda que não pela herança genética e sim pelo contato direto com seus bebês.

Quando o bebê tem entre 19 e 31 meses, abre-se o que se chama de "janela de infectividade". É nessa fase que pode haver a contaminação, caso a mãe ainda esteja com a doença. Os bebês contaminados reconhecem as bactérias da saliva da mãe como suas e por isso não fazem anticorpos contra elas. Não se sabe ainda o porquê, mas o contágio pela cárie costuma ser bem mais agressivo nos meninos.

Quando o bebê é infectado, certamente apresentará os sintomas da cárie ainda na primeira dentição. O ideal seria que todos os bebês pudessem ser avaliados o mais cedo possível, através dos exames da saliva. São eles que vão indicar a probabilidade da criança ter sido colonizada pela sua mãe com a doença. Quando isso é feito a tempo, o que ainda é muito raro, é possível interferir antes que as cavidades cariosas comecem a surgir.

Há quatro fatores de desequilíbrio na saliva que podem ser avaliados através de exames. O primeiro deles é o fluxo de secreção salivar. Quanto mais saliva, maior a proteção contra a cárie. A capacidade tampão da saliva, que é a capacidade de modificar o seu pH do meio ácido para o meio neutro, é outro fator avaliado.

Se o meio bucal é muito ácido, acontece a desmineralização do esmalte, aumentando o risco de cavidades cariosas. Embora essa característica da saliva seja de ordem genética, pode ser modificada.

É preciso avaliar ainda na saliva os níveis de estreptococos do grupo Mutans, principal causador das cavidades cariosas, e os níveis de lactobacilos, outro tipo de bactérias que sobrevivem em meio ácido, produzindo ácidos. A presença dessas bactérias na saliva é um fator perpetuador das condições que levam à perda mineral e, conseqüentemente, à cárie.

Os testes salivares podem ser aplicados também em adultos que apresentam cavidades cariosas com muita freqüência. Assim como acontece com as crianças, os exames podem verificar quais os fatores que estão em desequilíbrio na saliva, impedindo a progressão das lesões cariosas e restabelecendo a saúde bucal.

Nos adultos, considera-se ainda alguns fatores que podem diminuir o fluxo salivar como o hábito de fumar, que resseca a boca, e o uso de alguns medicamentos.

É preciso também fazer um minucioso exame dentário para detectar lesões que ainda não cavitaram, para tratá-las. A cárie é um processo infeccioso que se repetirá sempre se não for combatido. Por isso os adultos podem ter lesões cariosas nos mesmos dentes que já foram tratados.

Mudanças difíceis, mas necessárias

Todas as ações que podem evitar a ocorrência da cárie em adultos e crianças e evitar a sua transmissão ainda não fazem parte da prática convencional, mas não há dúvida que é esse o futuro da odontologia. O objetivo é trabalhar a verdadeira prevenção primária, que na verdade pode ser iniciada ainda antes da infância.

Ainda existe quem acredite que grávidas não devam cuidar dos dentes, assim como encontramos mulheres que acabam não cuidando da saúde bucal durante a gravidez. Mais tarde, com o nascimento do bebê, o acúmulo de obrigações acaba colocando o cuidado com os dentes no final da lista das prioridades femininas. Tudo isso faz com que aumentem as chances da ocorrência das cavitações nas mulheres.

Quanto mais infectada estiver a mãe durante o período em que ocorre a janela da infectividade, mais chances o bebê terá de ser infectado. As pesquisas norte-americanas indicam que o período de contágio se dá entre os 19 e 31 meses, mas estudos brasileiros apontam que a infecção pode acontecer ainda mais cedo.

Antes de diagnosticar a doença e modificar as condições de saúde bucal das crianças, seria ainda mais importante que as mulheres grávidas passassem por um grande trabalho de esclarecimento sobre cuidados com os dentes durante a gravidez.

Até mesmo mudanças culturais estão incluídos nesse trabalho de prevenção. Muitos comportamentos que naturalmente percebemos como uma forma de amor são na verdade os grandes meios de contaminação da cárie da mãe para a criança.

Carinhos como beijos no rosto, nos lábios e nas mãozinhas do bebê devem ser evitados, assim como o hábito de experimentar suas papinhas e suquinhos utilizando os utensílios que o bebê levará à boca.

A alimentação, outro dado cultural, também precisa passar por reformulações. Comemos açúcar demais e o prejuízo disso para os dentes é grande. O açúcar refinado, que usamos no leite, nos doces, biscoitos e bolos é aderente e fica retido por muito tempo na cavidade bucal.

Embora a mudança seja muito difícil, é importante pelo menos tentar diminuir a ingestão do açúcar, substituindo-o por frutas, por exemplo. Outro cuidado é limitar a ingestão de sacarose ao horário das refeições principais, quando a salivação é maior.

Comer doces nos intervalos é ruim, pois a salivação é menor nesses períodos, facilitando a ocorrência das lesões cariosas.

Quanto à escovação, já não se preconiza mais uma única forma correta. Cada um desenvolve a sua própria maneira de escovar os dentes, a que lhe é mais confortável.

A melhor técnica é aquela a que a pessoa melhor se adapta e esta deve ser apenas aperfeiçoada pelo dentista. É mais produtivo aprimorar o hábito do que tentar modificá-lo.

O objetivo da escovação é sempre desorganizar as placas bacterianas. Quanto mais organizadas elas estiverem, maior a sua capacidade de produção ácida. Não é fácil atingir toda a placa bacteriana durante a escovação e na verdade não é isso que se deseja.

Isso porque essas placas têm um papel ecológico, pois são elas que nos protegem contra infecções oportunistas na boca.

Antes de dormir, os cuidados devem ser redobrados. Como a salivação diminui durante a noite, é importante não ingerir doces nesse horário. O mesmo se aplica aos bebês e por isso as mamadeiras açucaradas nunca devem ser dadas aos bebês nesse período.

Uma boa tática é usar antes de dormir os enxaguatórios bucais. Esses produtos, quando contêm flúor, equilibram a perda mineral e aumentam a proteção do dente durante a noite. Esse hábito deve ser iniciado ainda na infância e mantido para o resto da vida.


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Nota: Todas as informações que compõem o conteúdo do site OdontoWeb têm caráter meramente informativo e ilustrativo. Nenhuma informação contida no site OdontoWeb deverá ser utilizada, sob hipótese alguma, para a execução de diagnósticos médicos, e de quaisquer outros procedimentos relacionados à saúde. Para tanto, sempre consulte e visite regularmente seu dentista.